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A Folha e o ateísmo militante

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No dia 10 de outubro de 2010 a Folha de São Paulo publicou um artigo escrito por Frei Betto, amplamente reproduzido por sites na internet, em que negava o boato de que Dilma seria atéia e dizia que os torturadores enfrentados por Dilma na ditadura, esses sim praticavam um “ateísmo militante” ao torturar as pessoas.

Imediatamente, enviei o seguinte e-mail à ouvidoria da Folha de São Paulo:

Manifesto em favor do respeito à liberdade de crença

Olá,

Venho manifestar a minha profunda decepção com a Folha de São Paulo que publicou, no dia 10 de outubro de 2010, o artigo “Dilma e a fé cristã” extremamente ofensivo com relação aos ateístas. Sou ateu convicto e feliz com isso e a bem da verdade pratico mais “dos ensinamentos cristãos” do que muitos dos próprios cristãos que do discurso à ação mantém uma boa distância.

Não é de hoje que a Folha vem se mostrando desrespeitosa com as minorias e desejo realmente que essa falta de ética e de honestidade com a própria profissão de vocês se reflita numa queda cada vez maior desse veículo que já tem sua credibilidade afetada por outros mais episódios vergonhosos. E o que mais um veículo de informação tem que valorizar senão a sua credibilidade?

Para minha surpresa hoje recebi a resposta da ombudsman da Folha, Suzana Singer, em que ela não só repete exatamente a mesma coisa dita por Frei Betto (como que explicando pra um tapado que não entendeu), como se realmente não enxergasse nada ofensivo, como também não menciona em momento algum acreditar na necessidade de retratação para com os ateus.

Caro leitor,

recebemos muitas mensagens com críticas ao artigo de frei Betto.

Conversando com ele, que estava partindo para a Itália na semana passada, disse que com a expressão “ateísmo militante” quis se referir às pessoas que violam os “templos de Deus” que seriam os corpos humanos. Assim, os torturadores seriam ateus militantes porque realizavam essa violação, mesmo se dizendo cristãos. Frei Betto diz que respeita quem é ateu, porque negar a existência de Deus, segundo ele, também é uma posição de fé. O que ele não reconhece (nem respeita) é quem tenta desmoralizar as concepções de fé de alguém.

De qualquer modo, as mensagens foram enviadas a ele e à Redação para conhecimento

att

A falta de informações e a abundância de preconceito à respeito dos ateus me surpreende negativamente a cada dia. Parece que a situação só piora. A desinformação e o preconceito só aumentam. E boa parte dessa culpa se deve à veículos como a Folha de São Paulo que veiculam artigos preconceituosos como esse. O restante da culpa é das pessoas sem senso crítico mesmo que leem e absorvem sem interpretar ou questionar. Mesmo um absurdo desses. Indignado, escrevi o e-mail abaixo para Suzana mas cada vez mais perco as esperanças de que, apesar dessa galera, amanhã há de ser outro dia. Parece que é sempre igual. =/

Suzana,

Você não percebe que o que você acaba de repetir é ofensivo para um ateu? Vou lhe explicar direitinho o quê e o porquê. Ateu é aquele que não acredita na existência de um ser divino, de um criador de todas as coisas. Simplesmente isso.

Você pode ser cristã e pode acreditar que fazer o bem ao próximo, por exemplo, é um princípio cristão. Mas fazer o bem ao próximo antes de ser um princípio cristão é um princípio ético e moral, ou seja, pra fazer o bem não precisa ser cristão. Precisa ter ética, moral, princípios, tudo isso independe de ser cristão ou teísta.

Não conhecia a expressão “ateu militante” mas no meu entendimento, e conhecendo o sentido da palavra ‘ateu’ (como destaquei no primeiro parágrafo), imagino que um ateu militante seja aquele que defenda esse princípio: a não existência de deus. Um torturador não é um ateu militante. Um torturador é uma pessoa sem princípios éticos e morais. E ainda mais, um criminoso. E o que você e Frei Betto fizeram foi isso: equiparar ateus a criminosos.

Você é cristã? Como você se sentiria se eu dissesse que católico militante é aquele que queima vivo a todo aquele que não compartilha de suas crenças? Ou que praticar o cristianismo militante é violar, abusando sexualmente, o corpo (o templo sagrado) das criancinhas desprotegidas? Acredito que você não ia se sentir bem, não é? Talvez até desejasse um pedido de desculpas por isso se eu publicasse isso em um veículo de projeção nacional como a Folha de São Paulo.

Vocês estão espalhando o preconceito contra os ateus, inclusive por compartilharem desse preconceito. Eu sou ateu e sigo aquilo que julgo moralmente correto. Não julgo correto disseminar o preconceito e difamar uma categoria. Seja ela qual for. Resta saber o que vocês, cristãos e cheios de sentimentos nobres à frente da Folha de São Paulo, julgam correto.

Um abraço

81? 18!

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Pensando agora não consigo me lembrar de outro modo. E olhe que faço esforço tremendo procurando em cada lembrança distante e recente! Não é que eu tenha apenas uma mesma imagem na mente. Não! Me vem várias imagens à cabeça. Situações diversas. Mas em todas elas ele traz um sorriso estampado no rosto… Desconfio que o sorriso compunha o seu rosto tanto quanto os seus olhos, ou o nariz.

Ano após ano, completava sempre dezoito. Sempre com o sorriso.

Há uns dois anos, quando foi a vez da minha avó Cássia, tirou seu Gol verde da garagem e veio bater aqui em João Pessoa. Imagina!? Enfrentou sozinho o trânsito selvagem do Recife, a BR-101 em obras, e, com toda a dificuldade que as marcas no seu velho Gol indicavam, estava aqui com a gente no momento derradeiro. Sempre com o sorriso. Sempre com dezoito.

Assim foi também há menos de dois meses, na festa dos 90 de tia Áurea. Ficou feliz de saber que agora eu era funcionário público. Elogiou minha mãe, que de todas as filhas de meu avô era, sem dúvida, a mais bonita. Dessa vez, teceu igual elogio à minha irmã. Relembramos a história do tostão achado na rua, que virou alguns côcos, que viraram cocadas, que viraram sustento pra a família ainda quando um meninote. Uma história admirável dentre tantas outras! Registramos também naquela ocasião o quão injustas eram as pessoas  ao compará-lo com Ariano. Sem dúvida alguma ele era muito mais bonito! Demos boas risadas e conversamos a valer na festa. Felizmente. Ele sempre com o sorriso. Sempre com dezoito.

Domingo encontrei com ele novamente. Desta vez não pudemos conversar. Apenas cheguei do lado dele e desejei, ao menos por um dia, enxergar o mundo através daqueles olhos. Ver a beleza que ele via no mundo e que o fazia sorrir ininterruptamente. Foi uma noite longa. Ouvi sobre como tudo tinha sido tão rápido, ouvi outras tantas histórias admiráveis de tio Arnaldo contadas por  Néia, Fred e minha mãe. Com a manhã chegaram mais amigos e parentes. Poucas palavras mesmo se tratando dos Correia Lima. Poucos sorrisos mesmo se tratando dos Lucena. Todos inertes diante do destino que nos aguarda. Mesmo os mais queridos como tio Arnaldo não podem escapar. Por mais que queiramos. Alguns acreditam que foi um presente que a mamãe Lucena recebeu neste domingo. Eu sei que vou lembrar dele sempre. Sempre com o sorriso. Sempre com dezoito.

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