cinema

As Canções

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Ontem fui ao Cinespaço assistir o novo filme do Eduardo Coutinho: As Canções. Tive o conforto de escolher a poltrona que bem entendesse já que até o momento nenhuma pessoa havia comprado ingresso pra aquela sessão. Até o início da película a situação mudou e o número de espectadores dobrou (ou seja, chegou mais uma pessoa).

É bem verdade que o horário da sessão é horrível. 18h pra quem trabalha é muito difícil. Mas ainda assim é de partir o coração ver um filme do mestre Coutinho nessa situação.

A estrutura do documentário é muito simples. Uma cadeira preta sobre um palco com cortinas também pretas. As pessoas entram passando pela cortina, sentam na cadeira e falam sobre ‘A música da sua vida’. Na minha interpretação esse cenário funciona também no sentido de reforçar a importância da música pra a vida daquelas pessoas. Como se no momento em que estivesse cantando aquela música a pessoa de fato se desvencilhasse da escuridão (o negro do cenário). E terminada a canção Coutinho por vezes faz questão de mostrar a pessoa levantando e voltando para as cortinas negras.

Como é característico de seu trabalho, Coutinho consegue extrair histórias tocantes de pessoas que estão o vendo pela primeira vez na vida. A grande maioria das histórias envolvem a perda de alguém querido, sobretudo o amor ‘da vida’. E usando uma frase dita por uma figura do documentário: ‘Como é que você vai lembrar das coisas se não for através da música?’. Diante de situações emblemáticas as pessoas acabam encontrando na música essa ferramenta perfeita para guardar lembranças. E assim como aquelas músicas tem um papel fundamental na vida de cada uma daquelas pessoas participar do documentário também contribui pra uma melhor resolução daquela situação delicada na vida da pessoa, segundo o próprio relato de uma das pessoas que Coutinho deixa pra o final do filme, tornando explícito aquilo que alguém possa ainda não ter percebido a essa altura do documentário.

E a importância do documentário se estende a todos nós. As canções nos mostra que no fim das contas o que marca a sua vida não é o seu trabalho, não é a sua faculdade, não é a quantidade de luxo que você usufrui. O que marca a sua vida são as pessoas. Então é bom você aproveitar o tempo junto de quem você ama ou então é melhor já ir ensaiando a música.

Tropa de Elite 2

Tropa de Elite tem lá os seus defeitos. E eu diria que de uma forma geral os defeitos do primeiro longa se repetiram no segundo. Afinal, a PM é retratada como a escória da humanidade e o BOPE tido como grupo incorruptível. Acredito que nem tanto ao céu e nem tanto ao inferno. Sem contar que boa parte dos espectadores saem da sessão querendo ver os ‘vagabundos’ sendo metralhados e espancados na vida real, numa espécie de esperança de contra-ataque à violência que vemos e convivemos diariamente, o que na verdade é meio que o inverso do que o diretor deseja.

Entretanto, mesmo em meio a tanto sangue, sessões de ‘saquinho no vagabundo’, e etc, Tropa de Elite traz também uma valorização dos princípios e do caráter, coisa rara de se ver no Brasil de hoje. Nascimento, Mathias e Fraga agem sempre motivados por intenções nobres, enquanto que os corruptos agem sempre com o objetivo de enriquecer ilicitamente, manter e aprimorar o sistema onde eles tenham seu espaço garantido. A coisa é tão bem feita que por algumas vezes ouvi gritos de ‘safado’ e ‘filho da puta’ quando mostradas as ações dos corruptos na tela (sobretudo do Rocha). E nesse ponto destaco a importância do elenco. Wagner Moura, André Ramiro e Irandhir Santos conseguem imprimir verossimilhança a seus personagens que poderiam soar irreais, não fosse o talento deles, agindo sempre de forma correta no meio de tanta safadeza e desonestidade. Vale destacar também a forma como Moura caracteriza Nascimento, evidenciando sempre o seu aspecto cansado, passados 10 anos do primeiro filme e em uma atividade que consome tanto dele, e a paixão com que Fraga defende as suas teorias e idéias, típicas de alguém que dedicaria sua vida a defender os direitos humanos. Milhen Cortaz consegue ilustrar bem a figura daquele que ainda enfrenta um certo conflito moral mas que se deixa vencer pela falta de coragem para confrontar. Sandro Rocha, na pele do Major Rocha, merece destaque. Consegue fazer o seu personagem ser um dos mais odiados do cinema nacional recente sem recorrer à artifícios usualmente utilizados para vilões. Palmas mais uma vez para Fátima Toledo na preparação de elenco (que está lançando um livro detalhando o seu método e em breve pretende estrear na direção de um longa).

Padilha consegue manter a tensão e o ritmo durante todo o filme mas a maior virtude do longa ao meu ver está na visão à respeito da corrupção. Tropa de Elite 2 mostra que existe sim um sistema complexo envolvendo política, mídia e instituições públicas como a própria polícia e que o combustível desse sistema é a corrupção, inclusive do cidadão comum. Tanto que corrompe como quem é corrompido tem responsabilidade. Quem compra o voto é tão culpado quanto quem vende. Quem é subornado é tão culpado como quem suborna. E enquanto houver mais corruptos do que honestos, sobretudo nas posições em que as decisões são tomadas, esse sistema vai se manter, independente da sua forma. Porém, Padilha não é ingênuo de sugerir que é fácil desestruturar esse sitema. Pelo contrário! Ele mostra que o processo é lento e árduo mas passa, invevitavelmente, por um caminho: você fazer o certo. Resta saber se o espectador vai absorver essa mensagem, ou se a exemplo da crítica do filme à violência da polícia também passará despercebido à maioria dos espectadores.

E você é caveira ou é corrupto?

A Onda

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Quantos filmes você já assistiu sobre o Holocausto? Provavelmente alguns. Felizmente existem muitas obras que registram essa época sombria da nossa história. Eu mesmo costumava dizer que era sempre bom que assistíssemos a filmes assim, pra que não fossemos capazes de repetir tais atrocidades. Mas será mesmo que conhecer a história é o suficiente pra que não sejam repetidos os mesmos erros? Como se consegue o apoio de uma nação mesmo quando se quer cometer crimes contra a humanidade? A Onda (Die Welle) investiga a raíz de uma questão que está na base não só do regime Nazista como de vários regimes que cometem atrocidades ainda hoje.

O plano inicial nos apresenta a Rainer Wenger (Jürgen Vogel), um professor de uma escola alemã que vai pra o trabalho ouvindo Rock ‘n’ Roll High School no último volume. A empolgação de Wenger não é gratuita (tampouco o tema ouvido no carro), hoje começam as disciplinas semanais e ele ministraria a disciplina de Anarquia. MinistrarIA uma vez que outro professor (do tipo realmente conservador) pegou a disciplina em seu lugar, justamente temendo a identificação dos alunos com o tema uma vez que Wenger era querido pelos alunos e daria a disciplina com paixão, por se identificar com a temática.

Desmotivado, Wenger fica com a turma de Autocracia, decidido a apenas “enganar” durante a semana e ambos, alunos e professor, verem-se livres daquilo. Entretanto, ao perceber como a turma considera impossível a idéia de um regime autocrático na Alemanha de hoje ele traça planos diferentes para o resto da semana: mostrar na prática que é possível!

Aos poucos, o professor vai inserindo os elementos de um regime autocrático na turma: uma figura modelo, disciplina como forma de controle social, uma identidade para o grupo (uniforme, nome, símbolo, cumprimento próprio), e por aí vai. A maior parte dos alunos vai gostando da idéia. Aqueles que ficavam à margem antes agora sentem-se parte do grupo, sentem-se à vontade para participar das discussões, e o grupo começa a ganhar mais união e mais adeptos. Aqueles que discordam do todo são excluídos do convívio e impedidos de participar. O filme, aliás, retrata os dissidentes como peças fundamentais para o desmantelamento do regime autocrático (repare como Karo usa sempre vermelho).

Nesse ambiente, sem que os seguidores da onda percebam, são conduzidos pelo professor Wenger tal qual um regime autocrático. Estava provado o que Wenger queria. Contudo, cego pelo poder que tinha sobre o grupo, Wenger continua com a situação até o limite, quando colocando um aluno dissidente como ameaça à continuidade do movimento, consegue mostrar à turma que eles seriam capazes de apoiar um ato extremo contra esse aluno simplesmente pelo medo de perder aquilo que eles valorizavam tanto naquele instante: A Onda. Só depois disso ele sai do papel de líder do movimento e volta para o papel de professor mostrando aos alunos o que acabara de acontecer ali. Entretanto, nem todos compreendem o caráter pedagógico do experimento (e nesse momento o filme insere um final mais dramático, para chocar mais o espectador).

Você pode estar pensando: “Sim, mas isso é um filme. Não significa que pode acontecer.”. Aí é que você se engana! Aconteceu. O filme é a adaptação de um livro que conta a história do experimento real conhecido como The Third Wave, conduzido pelo professor Ron Jones, em 1967 na California. E, claro, acontece na vida real, não apenas em experimentos.

O filme chama atenção para o fato de que nem sempre a população se dá conta de que está sob um regime autocrático. Quando se olha para a Venezuela de Chávez é bem fácil apontar um regime autocrático mas e os Estados Unidos? Será que tá muito distante disso? Sua realidade, leitor, é muito distante disso? Será que existe um grupo de pessoas querendo impor sua vontade sobre nós? Será que somos levados a viver de uma forma consumista, superficial, materialista? Será que somos conduzidos a não pensar? Qual é o mais perigoso? O explícito ou o camuflado? A Onda nos dá a resposta. Em uma festa (por volta dos oito minutos de filme), Dennis (repare que o personagem leva o nome do diretor) trava o seguinte diálogo com um amigo:

- Martin, diga-me, ok? Contra o quê realmente se deve rebelar hoje em dia? Hoje não tem mais importância, certo? Todos já tem só os seus… seus prazeres na cabeça. O que falta à nossa geração… é um objetivo comum, que nos una a todos.
- Este é o espírito-da-época, olhe em volta de você. A pessoa mais procurada no Google é quem? Paris do-caralho Hilton.
É o diretor Dennis Gansel nos alertando diretamente: Ei, você, olhe ao seu redor! Existe um jogo! Será que você faz parte do jogo? Será que você está sendo levado pela onda?
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