O lado bom da campanha religiosa
No final do primeiro turno e durante todo o segundo turno das eleições deste ano, tanto em âmbito nacional como aqui na Paraíba, a campanha religiosa tem tomado conta dos noticiários, horários eleitorais e da internet. Mas vale destacar que esse fenômeno não é exclusividade dos brasileiros. Nos Estados Unidos, por exemplo, a situação é muito parecida. Os candidatos ostentam a sua religiosidade (mesmo que apenas temporária, em virtude das eleições) para não perder votos por causa do preconceito em um país predominantemente cristão. Comparo com os EUA pois posso mostrar alguns dados de estudos realizados por lá e as conclusões alcançadas servem para reflexão também para nós do Brasil.
Pois bem, convido você a assistir a seguinte palestra TED de Richard Dawkins (tem legendas em português do Brasil disponíveis). A palestra é mais abrangente do que o tema deste post, a campanha religiosa, mas em determinado momento ela tangencia este tema e os dados apresentados por Dawkins assim como as questões que ele levanta são interessantíssimas. Recomendo fortíssimamente que assista ao vídeo todo.
Dawkins mostra que a maioria esmagadora dos estudos que relacionam religiosidade com nível intelectual apontam para uma relação inversa entre eles, ou seja, em geral quanto maior o nível intelectual menor a chance do indivíduo ser religioso. Um outro estudo, realizado em 1998 por Larson e Witham, questionou o seleto grupo de cientistas que faziam parte da National Academy of Sciences. O resultado foi:
7% declararam-se teístas (acreditavam na existência de um deus ou força superior)
20% declararam-se agnósticos
73% declararam-se ateus
Resultado que corrobora os estudos anteriores, que apontam para uma relação inversamente proporcional entre religiosidade e intelecto. Mas ainda assim, mesmo os maiores estudiosos da sociedade apontando para esse posicionamento, essa não é uma visão aceita dentro da sociedade. Aquele que se mostra ateu é visto como alguém sem moral, sem princípios, indigno de confiança. Tudo fruto única e exclusivamente do preconceito. Por isso candidato nenhum pode declarar-se ateu. No brilhante discurso de Dawkins, ele conclui: “Se estou certo, os mais altos cargos políticos do maior país do mundo são barrados para as pessoas mais qualificadas, a elite intelectual. A menos que eles estejam dispostos a mentir sobre suas crenças. Colocando de forma direta, as oportunidades políticas americanas são fortemente contrárias àqueles que são simultanemaente inteligentes e honestos.”
Vale a reflexão. No Brasil é diferente? Isso está certo? Precisa mudar? Como mudar? A única forma de mudar é vencendo o preconceito. Pra vencer o preconceito temos que nos mostrar à sociedade. A melhor forma de uma pessoa que acha que um ateu é um homem sem princípios, sem escrúpulos, sem moral e ética, mudar de opinião é saber que aquele professor que ela tanto admira por suas atitudes é ateu. É saber que aquele amigo que ela tanto confia é ateu. É ver que os ateus estão por aí e que são pessoas boas. Não são comedores de criancinhas.
E é justamente aí que aparece o lado positivo da campanha religiosa. Diante de tanta asneira sendo vomitada na nossa frente, tantas declarações estapafúrdias e repulsivas, alguns ateus começaram a entender que a chave para acabar com o preconceito é sair do armário. Parabéns a neurocientista Suzana Herculano-Houzel que publicou em seu site que é atéia e se sente descriminada e com isso motivou a publicação deste post. Apareçam, ateus. Vocês são bem vindos.
Iniciando a leitura deste texto, permiti-me pensar que os ateus tendenciam a criação de uma nova religião, ou que vem surgindo uma nova corrente de pensamento, mas, mais adiante, percebi o motivo pelo qual você escreveu isso.
A unica ressalva que faço, meu nobre amigo, é a d que o que permeia os debates entre cristãos e cristãos de todo tipo não é o preconceito contra os ateus. É o falso-moralismo escancarado. É o “sou contra o aborto, mas se for com a minha filha…”, “detesto gays, mas se lessem meus pensamentos…”, “liberação das drogas? NUNCA – mas num conta pra ninguem daquele back q eu puxei!”
É isso. Falso-moralismo. Abaixo essa merda!
George Martins
Radialista, bombeiro, socialista, cristão