Quantos filmes você já assistiu sobre o Holocausto? Provavelmente alguns. Felizmente existem muitas obras que registram essa época sombria da nossa história. Eu mesmo costumava dizer que era sempre bom que assistíssemos a filmes assim, pra que não fossemos capazes de repetir tais atrocidades. Mas será mesmo que conhecer a história é o suficiente pra que não sejam repetidos os mesmos erros? Como se consegue o apoio de uma nação mesmo quando se quer cometer crimes contra a humanidade? A Onda (Die Welle) investiga a raíz de uma questão que está na base não só do regime Nazista como de vários regimes que cometem atrocidades ainda hoje.

O plano inicial nos apresenta a Rainer Wenger (Jürgen Vogel), um professor de uma escola alemã que vai pra o trabalho ouvindo Rock ‘n’ Roll High School no último volume. A empolgação de Wenger não é gratuita (tampouco o tema ouvido no carro), hoje começam as disciplinas semanais e ele ministraria a disciplina de Anarquia. MinistrarIA uma vez que outro professor (do tipo realmente conservador) pegou a disciplina em seu lugar, justamente temendo a identificação dos alunos com o tema uma vez que Wenger era querido pelos alunos e daria a disciplina com paixão, por se identificar com a temática.

Desmotivado, Wenger fica com a turma de Autocracia, decidido a apenas “enganar” durante a semana e ambos, alunos e professor, verem-se livres daquilo. Entretanto, ao perceber como a turma considera impossível a idéia de um regime autocrático na Alemanha de hoje ele traça planos diferentes para o resto da semana: mostrar na prática que é possível!

Aos poucos, o professor vai inserindo os elementos de um regime autocrático na turma: uma figura modelo, disciplina como forma de controle social, uma identidade para o grupo (uniforme, nome, símbolo, cumprimento próprio), e por aí vai. A maior parte dos alunos vai gostando da idéia. Aqueles que ficavam à margem antes agora sentem-se parte do grupo, sentem-se à vontade para participar das discussões, e o grupo começa a ganhar mais união e mais adeptos. Aqueles que discordam do todo são excluídos do convívio e impedidos de participar. O filme, aliás, retrata os dissidentes como peças fundamentais para o desmantelamento do regime autocrático (repare como Karo usa sempre vermelho).

Nesse ambiente, sem que os seguidores da onda percebam, são conduzidos pelo professor Wenger tal qual um regime autocrático. Estava provado o que Wenger queria. Contudo, cego pelo poder que tinha sobre o grupo, Wenger continua com a situação até o limite, quando colocando um aluno dissidente como ameaça à continuidade do movimento, consegue mostrar à turma que eles seriam capazes de apoiar um ato extremo contra esse aluno simplesmente pelo medo de perder aquilo que eles valorizavam tanto naquele instante: A Onda. Só depois disso ele sai do papel de líder do movimento e volta para o papel de professor mostrando aos alunos o que acabara de acontecer ali. Entretanto, nem todos compreendem o caráter pedagógico do experimento (e nesse momento o filme insere um final mais dramático, para chocar mais o espectador).

Você pode estar pensando: “Sim, mas isso é um filme. Não significa que pode acontecer.”. Aí é que você se engana! Aconteceu. O filme é a adaptação de um livro que conta a história do experimento real conhecido como The Third Wave, conduzido pelo professor Ron Jones, em 1967 na California. E, claro, acontece na vida real, não apenas em experimentos.

O filme chama atenção para o fato de que nem sempre a população se dá conta de que está sob um regime autocrático. Quando se olha para a Venezuela de Chávez é bem fácil apontar um regime autocrático mas e os Estados Unidos? Será que tá muito distante disso? Sua realidade, leitor, é muito distante disso? Será que existe um grupo de pessoas querendo impor sua vontade sobre nós? Será que somos levados a viver de uma forma consumista, superficial, materialista? Será que somos conduzidos a não pensar? Qual é o mais perigoso? O explícito ou o camuflado? A Onda nos dá a resposta. Em uma festa (por volta dos oito minutos de filme), Dennis (repare que o personagem leva o nome do diretor) trava o seguinte diálogo com um amigo:

- Martin, diga-me, ok? Contra o quê realmente se deve rebelar hoje em dia? Hoje não tem mais importância, certo? Todos já tem só os seus… seus prazeres na cabeça. O que falta à nossa geração… é um objetivo comum, que nos una a todos.
- Este é o espírito-da-época, olhe em volta de você. A pessoa mais procurada no Google é quem? Paris do-caralho Hilton.
É o diretor Dennis Gansel nos alertando diretamente: Ei, você, olhe ao seu redor! Existe um jogo! Será que você faz parte do jogo? Será que você está sendo levado pela onda?